
Fui para Goiás De lá avistei o mundo
O mundo dentro do mundo
Cá dentro de nós.
Guimarães Rosa.
A Aldeia Ecológica Guardiões do Cerrado, Serranópolis, GO, está a 600 km de Brasília, a 800 Km de São Paulo e 80km do Parque Nacional das Emas em Goiás, já quase na divisa com o Mato Grosso do Sul. Somos vizinhos (4 Km) da Pousada das Araras onde estão as pinturas rupestres datadas com 12,000 anos de arqueologia da psique em pleno Brasil Central. O objetivo maior da Aldeia é o de preservar esse local sagrado em comunhão com o cerrado, morada de nossos ancestrais e raiz da cultura do e no coração do Brasil. O cerrado tem sido dramaticamente devastado para dar lugar à monocultura da soja, e mais recentemente, da cana de açúcar. Estamos na ponta de um corredor naturalmente ecológico que interliga com o Parque Nacional das Emas e Pantanal. Tudo ao redor está ocupado por sojacultores, fazendeiros e carvoeiros. Como estamos fazendo um trabalho de preservação ambiental, os habitantes naturais do cerrado que estão em extinção, buscam refúgio na nossa Aldeia: as onças pintadas, suçuaranas e jaguatiricas vão até lá para dar à luz suas crias; lobos-guará, raposas, tamanduás, veados, quatis, ouriços, pacas, antas, queixadas, catetos, capivaras são alguns de nossos queridos adoradas por Ártemis e por nós. Os caçadores, com seus cachorros em matilha e trelhados ainda hoje ousam em se adentrar no território sagrado. Rogamos às serpentes de Sofia. O Aqüífero Guarani tão bem protegido pelos segredos de Gaia corre em nossas veias e Uiara, junto com Ártemis, se alegram com a passarada de S. Francisco que colore o céu azul do rio Corrente. São araras azuis, vermelhas e amarelas, papagaios e periquitos estridentemente verdes, tucanos cor de fogo, gaviões atentos, urubus-rei arque-arque-oh-lógicos, mutuns e cantos nunca antes ouvidos de pássaros secretos – talvez eu esteja exagerando, mas as dadivosas copaíbas, aroeiras, jatobás, angico, sucupiras, ipês, pequis e araticuns são o pouso, o respirar, o embalo dos sonhos e o palco de onde cantam e de onde alçam vôos no silêncio e por sobre as rochas. Rochas de lava basáltica e arenito, complexidade suficiente para o mistério de deus, deuses e deusas.
Luciana Aires Mesquita. |