
Cultura Indígena
Os povos primitivos sabem como conversar com suas almas.
Carl G. Jung
A Mitoludens sentiu-se honrada em celebrar o Dia Nacional dos Povos Indígenas, 19 de abril, com a oficina de Pintura Corporal Kayapo com artistas da Aldeia Moikarakô (PA).
O Povo Kayapó é um povo muito querido e
de grande sensibilidade artística.
Em todos os sentidos.
São guerreiros também.
Grande força de caráter.
E não perdem a suavidade,
a leveza,
o bom humor
e a Arte!
A Mitoludens hospedou duas famílias Kayapó na Chácara Mico Estrela e eles ofereceram a oficina de Pintura Corporal durante todo o dia 19/04. Foi um dia pleno de vivência permitindo uma re-conexão com nossa alma indígena. A Mitoludens proporcionou um ambiente tranquilo e inspirador junto ao cerrado rupestre. Nesta semana indígena recebemos a presença da nutricionista Soraya Vidya e do homeopata Walter Romero Menon. Nossos sinceros agradecimentos, de coração! Alegramo-nos também pelo convite que os Kaiapó receberam pelo indigenista Fernando Schiavini para participarem do Festival de Culturas Tradicionais/2007 em Alto paraíso - GO.
LEMBRANDO: SOU ÍNDIO
“Vi muitas pessoas se postarem diante de mim, um índio, e ficarem a olhar-me. Além de me lançarem uma série de perguntas, entre elas, se não existe mais índio “brabo”.
Penso comigo: o que estarão eles pensando? Esforço-me para penetrar em seus pensamentos. Afinal, um descendente de índios selvagens, descendente de seres mitológicos, índios, está postado diante deles, de calças, camisa e sapatos. Nesse momento, a imaginação desse povo simples voa pelo mundo da fantasia.
Como será que vive? O que come? Será descendente de comedores de gente? Terá ele provado alguma carne humana? Tem ele algum sentimento humano de amor e compaixão?
Enfim, percebo que as interpretações e comparações que nos fazem não passam da categoria de animais exóticos que habitam a selva. Tenho vontade de fazê-los compreender meu mundo, assim como cheguei a compreender o mundo deles.
Gostaria de dizer-lhes que faço parte de uma sociedade que possui normas de vivência harmônica entre os homens e a natureza. Gostaria de dizer-lhes que possuímos nossos valores sociais, políticos, econômicos, culturais e religiosos, que adquirimos através dos tempos, de geração em geração.
Gostaria de dizer-lhes que formamos um mundo equilibrado e justo de relações humanas. Dizer que, como humanos, estamos sujeitos a falhas, erros. Dizer que nossos sentimentos mais íntimos são exteriorizados por meio da arte, da língua, da nossa religião, das festas acompanhadas de ritos e cerimônias.
Dizer que conseguimos nossa experiência diante da vida e do universo. Dizer que conseguimos chegar a um equilibrado mundo prenhe de valores que transmitimos a nossos filhos, o que, em outras palavras mais compreensíveis, é sinônimo de educação.
Gostaria de dizer-lhes também que tudo isso vem sendo deturpado, desrespeitado e destruído. Dizer que estamos despertando para uma nova realidade. Estamos percebendo que todas as tentativas estão sendo feitas para acabar com nossos princípios constituídos.
Dizer que um dos nossos objetivos fundamentais é levar às nossas comunidades o conhecimento dessa realidade nova que nos rodeia. Do interesse em perpetuar nossos valores morais e culturais.
Dizer que estamos prontos para receber o que de útil a sociedade deles nos oferece e rechaçar o que de ruim elas nos apresenta. Mas a cegueira etnocêntrica não permite esse diálogo franco e sincero.”
DANIEL MATENHO CABIXI, índio PARESI/MT
(in: MUNDURUKU, Daniel, O Banquete dos Deuses. SP: Angra, 1999)
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Carta de Amor 1854:
“O Grande Chefe de Washigton manda dizer que deseja comprar nossas terras. O Grande Chefe também nos envia palavras de amizade e boa vontade. Apreciamos esta gentileza, porque sabemos que pouca falta a nossa amizade vos faz. Consideraremos vossa oferta, pois sabemos que, se não o fizermos, o homem branco poderá vir com as suas armas de fogo e tomar nossas terras. O grande Chefe em Washington poderá confiar no que e Chefe Seattle diz com a mesma certeza com que nossos irmãos brancos poderão confiar na volta das estações. As minhas palavras são imutáveis como as estrelas”.
Como poderíeis comprar ou vender o céu, o calor da terra? Esta idéia parece-nos estranha. Não somos donos da frescura do ar nem do cintilar da água. Como poderíeis comprá-los de nós? Decidi-lo-emos oportunamente. Sabereis que cada partícula desta terra é sagrada para meu povo. Cada folha resplandecente, cada praia arenosa, cada neblina no escuro bosque, cada clarão e cada inseto com o seu zumbido são sagrados na memória e na experiência de meu povo. A seiva que circula nas árvores porta as memórias do homem de pele vermelha. Os mortos do homem branco esquecem sua terra natal quando vão caminhar por entre as estrelas. Nossos mortos jamais esquecem esta formosa terra, porque ela é a mãe do homem de pele vermelha. Somos parte da terra e ela é parte de nós. As perfumadas flores são nossas irmãs; o veado, o cavalo, a águia majestosa são nossos irmãos. Os picos rochosos das montanhas, as seivas das pradarias, o calor corporal do potro novo e o do homem, todos pertencem à mesma família. Por isso, quando o Grande Chefe em Washington manda dizer que nos reserva um lugar no qual possamos viver confortavelmente. Ele será nosso pai e nós seremos seus filhos. Por isso consideraremos sua oferta de comprar nossas terras. Mas isso não será fácil porque estas terras são sagradas para nós. A água cintilante que corre em nossos rios e nascentes não é meramente água, senão o sangue de nossos antepassados. Se vos vendermos estas terras tereis que recordar que elas são sagradas e devereis ensinar a vossos filhos que elas o são e que cada reflexo fantasmal nas águas claras dos lagos fala de acontecimentos e recordações da vida de meu povo. O murmúrio da água é a voz do pai de meu pai. Os rios são nossos irmãos, eles aplacam nossa sede. Os rios levam nossas canoas e alimentam nossos filhos. Se vos vendermos nossas terras devereis recordar e ensinar vossos filhos que os rios são nossos irmãos e irmãos vossos; devereis a partir de então dispensar aos rios o trato bondoso que daríeis a qualquer irmão. Sabemos que o homem branco não compreende nossa maneira de ser. Para ele, cada pedaço de terra tem o mesmo valor que qualquer outro, porque ele é um estranho que chega à noite para roubar aquilo de que necessita. A terra não é sua irmã, senão sua inimiga. Uma vez tendo-as conquistado, abandona-a e segue seu caminho. Deixa atrás de si as sepulturas de seus pais sem se importar. Esquece a sepultura de seu pai e os direitos de seus filhos. Trata sua mãe, a terra, seu irmão e o céu como se fossem coisas que pudessem ser compradas, saqueadas ou vendidas, como se fossem cordeiros e contas de vidro. Seu insaciável apetite devorará a terra e deixará atrás de si apenas um deserto. Não nos compreendo. Nossa maneira de ser é diferente da vossa. A visão de vossas cidades faz does os olhos do homem de pele vermelha. Mas quiçá seja assim porque o homem de pele vermelha é um selvagem e não compreende as coisas. Não há nenhum lugar tranqüilo nas cidades do homem branco, nenhum lugar onde se possa ouvir as folhas na primavera ou o bater das asas dum inseto. Mas quiçá seja assim porque sou um selvagem e não posso compreender as coisas. O barulho da cidade parece insultar os ouvidos. E que espécie de vida se tem quando o homem não é capaz de escutar o solitário grito da garça ou a discussão noturna das rãs ao redor da lagoa? Sou um homem de pele vermelha e não compreendo. Nós os índios preferimos o suave som do vento que acaricia a face do lago e o odor desse mesmo vento, purificado pela chuva do meio-dia ou perfumado pela fragrância dos pinheiros. O ar é algo precioso para o homem de pele vermelha porque todas as coisas compartilham o mesmo alento: o animal, a árvore, o homem. O homem branco parece não sentir o ar que respira. A semelhança de um homem há muitos dias agonizante, tornou-se insensível ao fedor. Mas se vos vendermos nossas terras, devereis recordar que o ar é precioso para nós, que o ar compartilha seu espírito com toda vida que sustenta. E, se vos vendermos nossas terras, devereis mantê-las sagradas como um lugar cujo vento adoçado pelas flores da pradaria até mesmo o homem branco poderá chegar a saborear. Consideraremos vossa oferta de comprar nossas terras. Se decidirmos aceitá-la, porei uma condição: que o homem branco deverá tratar os animais destas terras como irmãos. Sou um selvagem e não compreendo outro modo de conduta. Tenho visto milhares de búfalos apodrecendo sobre as pradarias, abandonados ali pelo homem branco que neles atirou ao passar de trem. Sou um selvagem e não compreendo como o fumegante cavalo de vapor poder mais importante que o búfalo, que apenas matamos para poder viver. O que é o homem sem animais? Se todos os animais houvessem desaparecido, o homem morreria de uma grande solidão de espírito. Porque tudo o que ocorre aos animais logo haverá de ocorrer também ao homem. Todas as coisas estão relacionadas entre si. Vós devereis ensinar vossos filhos que o chão sob seus pés é a cinza dos seus avós. Para que respeitem a terra, devereis dizer a vossos filhos que a terra está plena da vida de nossos antepassados. Devereis ensinar a vossos filhos o que nós temos ensinado aos nossos: que a terra é nossa mãe. Tudo o que afeta a terra afeta os filhos da terra. Quando os homens cospem no chão, cospem em si mesmos. Isso nós sabemos: a terra não pertence ao homem, senão que o homem pertence à terra. O homem não teceu a rede da vida: é apenas um fio dela. Tudo o que ele fizer à rede fará a si mesmo. O que acontece à terra acontecerá aos filhos da terra. Sabemos disso. Todas as coisas estão relacionadas como o sangue que une uma família. Nem mesmo o homem branco, cujo Deus passeia com ele e conversa com ele de amigo a amigo, pode estar isento do destino comum. Quiçá sejamos irmãos, depois de tudo. Veremos. Sabemos algo que talvez descubrais algum dia: que nosso Deus e o vosso são o mesmo. Agora pensais quiçá que sois donos d’Ele tal como desejais ser donos de nossa terra: mas não podereis sê-lo. Ele é o Deus da humanidade e Sua compaixão pelo homem de pele vermelha é igual à que Ele tem pelo homem branco. Esta terra é preciosa para Ele, e causar-lhe dano significa mostrar desprezo pelo seu criador. Os homens brancos também passarão, talvez antes que as demais tribos. Se contaminais vossa cama, morrereis alguma noite sufocados por vossos próprios desperdícios. Mas ao menos em vossa hora final nos sentirei iluminados pela idéia de que Deus vos trouxe a estas terras e vos deu o domínio sobre elas e sobre o homem de pele vermelha com algum propósito especial. Tal destino é um mistério para nós, porque não compreendemos o que será quando os búfalos tenham sido exterminados, quando os cavalos selvagens tenham sido domados, quando os recônditos cantos dos bosques exalarem o odor de muitos homens e quando a vista das verdes colinas estiver impedida por um enxame de arames que falam. Onde está a águia? Desapareceu. Assim termina a vida e começa o sobreviver…” (in: Campbell, Joseph. O Poder do Mito. Ed. Pallas Athena)
ABRIL INDÍGENA 2008 Documento Final do V Acampamento Terra Livre
Nós, 800 lideranças representando os mais de 230 povos indígenas das distintas regiões do Brasil, nos reunimos em Brasília, de 15 a 17 de abril, por ocasião da mobilização indígena nacional, o Abril Indígena – Acampamento Terra Livre 2008, para analisar a situação dos nossos direitos, partilhar as nossas realidades, demandas e aspirações, bem como para unificar as nossas reivindicações e exigir, mais uma vez, do Poder Público a efetivação dos nossos direitos, justamente no vigésimo aniversário da Constituição Federal.
A nossa Carta Magna reconhece o caráter multiétnico e pluricultural do Estado brasileiro, portanto, o nosso direito ao tratamento diferenciado, na perspectiva da autonomia dos nossos povos.
Depois de analisarmos a situação dos nossos direitos e da política indigenísta nacional constatamos que continuamos a ser vítimas da discriminação, do preconceito e da intenção, explícita ou velada, de nos extinguir enquanto povos, com uma identidade diferenciada, fincada em espaços territoriais necessários para a nossa sobrevivência física e cultural, com organização social própria.
Contudo, fazemos parte do Estado Nacional, que depois da colonização européia se implantou sobre os territórios ocupados milenarmente por nossos povos e ancestrais.
O Estado brasileiro tem se mostrado incapaz de conviver e oferecer tratamento diferenciado aos nossos povos. O Governo tem feito esforços significativos, mas continua submetido à pressão de interesses econômicos e políticos que sempre mandaram neste país, criando situações que acarretam a grave crise no atendimento da saúde indígena e da violência contra os povos indígenas.
O Legislativo, dominado por esses setores, ao invés de regulamentar os nossos direitos, reconhecidos há 20 anos pela Constituição Federal, tem sido palco de intensa disputa com o propósito de restringir nossos direitos.
No Judiciário embora tenham sido registrados importantes decisões de mérito favoráveis aos nossos direitos, tais como a prioridade assegurada para apreciação dos processos de interesses indígenas, adotada pela primeira vez, em 2006, na gestão da Ministra Ellen Gracie, várias decisões liminares tem revelado compreensões limitadas sobre a aplicação das normas constitucionais, processuais e de proteção e promoção dos nossos direitos estabelecidos pela comunidade internacional, no âmbito da Organização das Nações Unidas.
Após vinte e cinco anos de tramitação reconhece-se o esforço do Ministro Eros Grau indicar para o julgamento definitivo o caso envolvendo a nulidade dos títulos imobiliários incidentes na terra tradicionalmente ocupada pelo povo Pataxó Hã-hã-hãe, no estado da Bahia. Esperamos que na gestão do futuro ministro Gilmar Mendes na presidência do Supremo atenções dessa natureza, que denotam sensibilidade para os direitos indígenas prossigam e sejam ampliadas para os demais órgãos do poder judiciário por intermédio do Conselho Nacional de Justiça.
Contudo, nos surpreende e deixa preocupados a recente decisão liminar do Supremo Tribunal Federal (STF) em medida cautelar requerida pelo estado de Roraima, de acordo com o voto do Ministro Carlos Ayres Brito, suspendendo atividade da administração pública federal destinada a garantir os direitos constitucionais dos povos Macuxi, Wapichana, Taurepang, Ingarikó e Patamona, na Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Esta decisão liminar do Supremo é inédita, por possibilitar que os invasores continuem usurpando o direito territorial dos povos indígenas, agindo com violência e com atos flagrantemente criminosos, que colocam em questão a convivência social, o Estado de Direito e a autoridade do Governo brasileiro.
Além destes casos e tantos outros que tramitam na justiça brasileira, destaca-se mais uma vez a necessidade do STF julgar o mandado de segurança contra a homologação da demarcação da Terra Indígena Ñanderu Marangatú, no estado do Mato Grosso do Sul, tradicionalmente ocupada pelo povo Kaiowá Guarani, cujo relator é o Ministro Cezar Peluso. Lembramos ainda da ação originária No. 442, da Terra Indígena Nonoai, no Rio Grande do Sul, que há 22 anos encontra-se para julgamento.
Diante deste quadro, os nossos povos mostram-se indignados e dispostos a lutarem, se necessário sacrificando a própria vida, para termos garantidos os nossos direitos. Dessa forma, exigimos do Governo brasileiro respostas urgentes e de relevante impacto, de caráter emergencial, mas sobretudo permanente e estruturante, às demandas apresentadas por nós nos últimos cinco anos e que pouco foram atendidas. Reafirmamos, porém, atenção especial às seguintes reivindicações e propostas.
1. Empenho na criação do Conselho Nacional de Política Indigenista (CNPI), envolvendo a sua base parlamentar na urgente tramitação e aprovação do Anteprojeto de Lei acordado entre o Governo e o movimento indígena no âmbito da Comissão Nacional de Política Indigenista.
2. Comprometimento na tramitação e aprovação do Estatuto dos Povos Indígenas, mantendo coerência com o acordado na Comissão Nacional de Política Indigenísta, no sentido de garantir a participação plena dos povos e organizações indígenas na discussão do mérito do Projeto correspondente, impedindo que temas contemplados no Substitutivo aos PLs 2057/91, 2160/91 e 2169/92 e seus apensos sejam tratados em leis específicas, como se pretende em relação ao Projeto de Lei nº 1.610, de 1996, cujo inteiro teor foi extraído do Capítulo sobre pesquisa e lavra de minérios em terras indígenas, já aprovado pelo Senado Federal e ora submetido à apreciação de uma Comissão Especial na Câmara dos Deputados.
3. Reformulação urgente da política de saúde voltada aos povos indígenas, garantindo o fim da dizimação em curso que vitima os povos indígenas no Mato Grosso do Sul e Vale do Javari, dentre tantos, aonde são registrados altos índices de doenças endêmicas e epidêmicas como a dengue, desnutrição, malária, tuberculose, hepatite, hanseníase e conseqüente alta mortalidade infantil. Este quadro, onde é clara a precariedade ou falta total de atendimento, tem provocado elevados índices de morte por desassistência.
A Funasa, órgão responsável pela saúde indígena, até hoje não tem se estruturado para oferecer um serviço à altura das nossas necessidades. São crônicos os problemas de demora na liberação de recursos e de medicamentos, de por si já escassos, a falta de profissionais, de infraestrutura e condições de trabalho nos pólos-base, postos de saúde e Casas do Índio, para as ações preventivas e curativas. A centralização retirou autonomia financeira e de gestão aos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI`s) e os índios são discriminados na rede do Sistema Único de Saúde (SUS). Este quadro tende a se agravar com a partidarização da saúde indígena, a terceirização e municipalização do atendimento e o desrespeito ao controle social exercido pelos Conselhos Distritais. Diante tudo isso reivindicamos: 1) a Revogação da Portaria 70, que institui a centralização da aquisição de insumos em Brasília e da Portaria 2656 que normatiza a municipalização da saúde indígena; 2) garantia da automomia política, administrativa e financeira dos DSEIS; 3) a permanência da saúde indígena no âmbito federal; 4) a criação de um fundo distrital; 5) reconhecimento e legalização das categorias de Agentes Indígenas de Saúde (AIS) e Agentes Indígenas de Saneamento (AISANS); 6) valorização dos pajés, parteiras e da medicina tradicional indígena; 7) humanização das Casas do Índio (CASAI`s); 8) aprimoramento do controle social através da formação e capacitação dos conselheiros indígenas; 8) garantia da referência e contra-referência na média e alta complexidade.
4. Demarcação e regularização de todas as terras indígenas, garantindo a sua devida desintrusão e proteção, para conter quaisquer tipos de invasões que ameaçam a integridade física e cultural dos nossos povos bem como a riqueza natural e da biodiversidade existente nos nossos territórios. Esses atos formais de reconhecimento dos nossos direitos territoriais devem ser necessariamente acompanhados de políticas de sustentabilidade dos nossos povos.
Destacamos as graves ameaças contidas no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do governo federal, principalmente através de projetos de infraestrutura como usinas siderúrgicas, grandes empreendimentos industriais e comerciais e a Transposição das águas do Rio São Francisco que atinge cerca de 26 territórios indígenas da região nordeste, as Usinas do Rio Madeira, do Estreito e Belo Monte, na região norte, o Complexo Hidrelétrico do Rio Tibagi, que atinge várias terras indígenas no sul do país e as pequenas e grandes hidrelétricas nos Rios Juluena e Kuluene, no Mato Grosso, que afetarão mais de 20 comunidades indígenas.
Destacamos a urgente necessidade da garantia da integridade das terras Guarani, particularmente do Morro dos Cavalos, e dos povos Kaingang, Guarani, Xetá e Xocleng, também no sul do país.
Destacamos o impacto ambiental e social que a construção de usinas de álcool trarão para as comunidades indígenas no Pantanal, Mato Grosso do Sul.
Destacamos ainda a necessária e urgente conclusão da desintrusão da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, observando que não existe divisão entre as comunidades, tratando-se de uma falsidade fabricada principalmente por seis arrozeiros invasores, beneficiário de isenção tributária do Estado de Roraima até 2018, em detrimento dos direitos de 18.992 de cidadãos indígenas. É também urgente a desintrusão da Terra Indígena Maraiwatsedé, para o retorno do povo Xavante a seu território tradicional.
Ressaltamos que a demarcação e regularização das Terras Indígenas na faixa de fronteira em nada compromete a integridade e soberania do Brasil, pelo contrário é a extrema violência dos invasores que ameaça e compromete a segurança do país nessas regiões, como ficou demonstrado nas últimas semanas, na Terra Indígena Raposa Serra do Sol.
Constatada a morosidade do Estado no atendimento destas demandas, reafirmamos a nossa disposição de proceder a ocupar os nossos territórios.
5. Adoção de medidas urgentes para conter o processo de violência e criminalização a que estão sendo submetidos os nossos povos, organizações e lideranças, muitas das quais são presas de forma arbitrária ou assassinadas a mando de fazendeiros e outros invasores das terras indígenas, como acontece com freqüência na região Nordeste e no Mato Grosso do Sul. Só em 2007 foram assassinados 92 líderes indígenas. Destacamos a impunidade dos envolvidos nos assassinatos do líder Truká Adenilson e seu filho Jorge, em Pernambuco, do líder Ortiz Lopes Kaiowá Guarani e da rezadeira Xureté Kaiowá Guarani, e de lideranças nos Estados do Ceará e Maranhão, casos até hoje não esclarecidos. Repudiamos e exigimos o fim da violência policial, o confinamento e a criminalização do povo Cinta Larga. É preciso punir os responsáveis pelos crimes cometidos contra os povos indígenas.
6. Implementação de uma política de educação escolar indígena de qualidade, específica e diferenciada, que garanta condições para o ensino fundamental e médio completo nas nossas aldeias, e o acesso dos jovens indígenas ao ensino superior, considerando os nossos reais interesses e aspirações, em áreas como a saúde, direito e educação. Concretamente reivindicamos: 1) a criação de um Fórum Permanente de Educação Indígena; 2) a criação do Conselho de Educação Escolar Indígena; 3) a criação de uma secretaria específica de educação escolar indígena para tratar dos recursos destinados a educação escolar indígena; 4) formação de professores indígenas nas Universidades Federais e Estaduais; 5) apoio aos estudantes do ensino superior, através de bolsas de estudos, garantia de casas de estudantes indígenas, programa específicos e diferenciados, além do sistema de cotas; 6) que o MEC restabeleça convênios com as organizações indígenas e não governamentais, ouvidas previamente os povos e comunidades indígenas; 7) criação de um Subsistema de Educação Escolar Indígena; 8) realização da Conferência Nacional de Educação Escolar Indígena; 9) reconhecimento dos títulos de estudantes indígenas formados no exterior; 10) efetivação dos professore indígenas pelo Estado.
Conquistamos com muita luta nossos direitos na Constituição que agora completa 20 anos, mas o Estado brasileiro não está cumprindo com seu dever de torná-los realidade.
Contra as falsas acusações de que atrapalhamos o projeto econômico em curso, afirmamos claramente que nós, povos indígenas, com base em nossas próprias histórias, valores e culturas, temos muito a contribuir com o desenvolvimento sustentável do país, na perspectiva da construção de uma sociedade justa e de um Estado verdadeiramente pluriétnico e democrático no Brasil.
Brasília, 17 de abril de 2008.
Fernando Schiavini Agora, vejam com atenção a sacação abaixo: Disse o General Heleno Augusto Pereira, Comandante Militar da Amazônia, entre outras "pérolas", que tem dado tanta repercussão no noticiário: "A atual política indigenista não condiz com o processo histórico de colonização deste país". Essa frase dá uma tese! Ela nos remete, como que tele-transportados, ao dia 15 de dezembro de 1548, quando foi editado o "Regimento de Tomé de Souza", a primeira lei da chamada "política indigenista brasileira". Dizia, em resumo, o Regimento: "Paz com os índios para que os cristãos possam colonizar o território. Guerra aos inimigos". Existe ainda outra informação histórica, ensinada nos livros escolares, que vamos registrar aqui para ilustrar a nossa tese: "Até 1531, quando foi realizada a expedição de Martim Afonso de Souza, que instituiu o sistema de sesmarias, predominavam o escambo e o tráfico de madeira e animais silvestres". Fundamentos da minha tese: 1) O processo histórico de colonização deste país sempre foi de usurpação dos territórios que já pertenciam aos povos indígenas; 2) Nada, ou pouquíssima coisa mudou, de 1.500 até hoje. Aos fatos: Os portugueses chegaram nesta terra financiados pela coroa e por comerciantes, com o objetivo declarado de explorar, colonizar e dominar. Para isso não mediram esforços militares, religiosos e econômicos. Resumidamente, o período colonial transcorreu com os padres tentando "amansar" e "reduzir" os povos indígenas através da catequese e declarando as "guerras justas" aos que não queriam cair nesse verdadeiro conto do vigário. Enquanto isso, os "colonizadores" avançavam para o interior, massacrando, escravizando e implantando fazendas de cana-de-açucar e gado. No período imperial, o que ficou marcado foi a edição da Lei de terras de 1850, que tirou o pouco de terras que havia sobrado às populações indígenas, deixando-as na miséria e mendicância. Na república, três grandes ciclos de avanço colonizador aconteceram: a "marcha para o oeste", instituída por Getúlio Vargas a partir da década de trinta, o processo de ocupação da Amazônia iniciado pelos governos militares nas décadas de sessenta e setenta e agora o tal do PAC - o Plano de Aceleração do Crescimento, deste governo. Estudos preliminares prevêem que cerca de 22% das terras indígenas serão impactadas pelo PAC, quase todas localizadas na Amazônia, onde, aliás, estão cerca de 99% das terras indígenas. Ou seja, no restante do país o tal do " processo histórico de colonização" do qual falou o general, deixou apenas 1% das terras que pertencem aos povos indígenas. São terras tão minúsculas, que mal dá pra localizar no mapa do país. Os arrozeiros que estão lá em Roraima brigando com os Macuxis, Wapixanas e Igaricós, que suscitaram simpatia do general, saíram do sul. São descendentes diretos de italianos, alemães, poloneses e outras nacionalidades, denominados genericamente de "gaúchos". Vejam onde chegaram esses "bravos" neo-bandeirantes: lá nos confins da Amazônia, na fronteira do Brasil com a Venezuela! Financiados por quem? Vou fechar a tese. Acompanhem o raciocínio, que o espaço é curto: 1) O processo de "colonização", que os povos indígenas chamam de "invasão", ainda não acabou; 2) Ele continua sendo incentivado e financiado pela "coroa", ou seja, pelo governo; 3) Os "índios" continuam sendo considerados empecilhos à "colonização". 4) Se eles não querem aceitar por bem, o governo precisa dar uma lição neles. Esses são os fatos atuais e a mentalidade que ainda prevalece nas elites militares, políticas e econômicas do Brasil. Agora, a cacetada final, pra entendermos verdadeira condição histórica do país: Não conseguimos superar ao menos o primeiro período histórico, caracterizado pelo escambo e o tráfico de madeiras e animais silvestres. Basta ver o noticiário cotidiano para comprovar isso. Só que agora ele é acrescido pelo tráfico de plantas medicamentosas, micro-organismos e outros materiais genéticos, acompanhados do conhecimento tradicional dos povos indígenas e dos outros habitantes da Amazônia. Dizem que até nióbio e outros minerais nobres são traficados da Amazônia para outros países. Porquê os militares não vão se ocupar dessas coisas, ao invés de ficarem atazanando a vida dos povos indígenas que, aliás, sempre protegeram muito melhor do que eles as fronteiras deste país? Terminando. O general disse outra frase interessante: "A Funai hoje, é um verdadeiro caos". Essa aí, até que ele passou perto de acertar. Mas isso é outra história. Ou outra tese, se quiserem. Um dia a gente fala sobre isso. Mais: www.todaserrazul.com
INVOCAÇÃO SIOUX:
Ó Grande Espírito,
Tua voz eu escuto no soprar dos ventos.
Tua vida eu sinto palpitar no universo imenso.
Escute-me!
A Ti eu venho como um de Teus filhos.
Sou pequeno e fraco.
Confio na Tua força e
Na Tua sabedoria.
Peço-Te que me transformes em beleza
E que meus olhos não cessem de contemplar
O rastro vermelho do pôr-do-sol.
Que minhas mãos tratem com dignidade
tudo o que criaste
E que meus ouvidos
estejam atentos à Tua voz.
Dá-me sabedoria,
para que eu possa compreender
tudo o que ensinaste ao meu povo
E a verdade que escondeste nas folhas
E nas cavidades das pedras.
Com gratidão,
Mãos puras e olhar sincero,
possa minha vida se apagar
Na Tua presença
Como o sol se põe!
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